Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em mercado financeiro e gestão corporativa, destaca que poucos temas revelam tão bem a complexidade da gestão financeira corporativa quanto a relação entre custo de capital e decisão de investimento. Em um ambiente de juros elevados, a lógica que orienta a alocação de recursos dentro das empresas muda de forma profunda: projetos que pareciam viáveis em cenários de custo de capital baixo precisam ser reavaliados, e as prioridades estratégicas das companhias se reorganizam em torno de uma nova equação de risco e retorno.
Esse processo pode ser analisado como um dos movimentos mais determinantes para a saúde financeira das empresas brasileiras nos últimos anos. A capacidade de recalibrar a tomada de decisão de investimento diante de mudanças no custo de capital separa as organizações que preservam valor daquelas que se comprometem financeiramente ao manter projetos inviáveis em execução.
O que muda quando o WACC sobe?
O custo médio ponderado de capital, conhecido como WACC, funciona como a taxa mínima de atratividade que um projeto precisa superar para ser aprovado dentro de uma empresa. Quando a taxa básica de juros sobe, o WACC aumenta em conjunto, porque tanto o custo da dívida quanto o retorno exigido pelos acionistas se elevam. Em termos práticos, isso significa que projetos de expansão, aquisição de ativos ou lançamento de novos produtos precisam entregar retornos maiores para justificar o capital investido. Pedro Magalhães pondera que muitas empresas subestimam esse efeito no curto prazo, mantendo o ritmo de aprovação de projetos sem ajustar as premissas do modelo financeiro ao novo patamar de custo de capital, o que gera destruição de valor que só se manifesta nos resultados financeiros alguns trimestres depois.
Outro ponto relevante é o impacto sobre o prazo de retorno aceito nas análises de investimento. Em ambientes de juro baixo, projetos com retorno em cinco ou seis anos eram considerados viáveis por gestores e conselhos. Com a elevação do WACC, o prazo máximo de retorno aceitável tende a se reduzir, privilegiando projetos com geração de caixa mais rápida e previsível em detrimento de iniciativas de longo prazo com maior potencial de crescimento, mas também maior incerteza.

Revisão de portfólio e disciplina de alocação de capital
A elevação do custo de capital acelerou, em muitas empresas, processos de revisão do portfólio de investimentos e de desinvestimento em ativos não estratégicos. Unidades de negócio com retorno abaixo do custo de capital passaram a ser candidatas naturais à venda ou ao encerramento, liberando recursos para aplicação em áreas com maior potencial de geração de valor. Conforme expõe Pedro Daniel Magalhães, a disciplina de alocação de capital tornou-se uma das competências mais valorizadas entre gestores financeiros e conselhos de administração no Brasil, especialmente em grupos diversificados que acumularam ao longo de anos de juro baixo uma série de iniciativas com retorno marginal insuficiente.
Nesse sentido, a revisão periódica do portfólio de investimentos deixou de ser uma prática restrita a empresas em dificuldade para se tornar parte da rotina de governança financeira das companhias mais bem geridas. Estudos da Harvard Business Review sobre alocação de capital em mercados emergentes indicam que organizações com processos formais de revisão do portfólio entregam retorno sobre o capital investido consistentemente superior à média do setor, independentemente do ciclo macroeconômico.
Estrutura de capital e a busca por equilíbrio financeiro
A decisão sobre a estrutura de capital ideal, ou seja, a proporção entre dívida e capital próprio utilizada para financiar as operações e os investimentos, também é diretamente afetada pela trajetória dos juros. Em contextos de custo de dívida elevado, o benefício fiscal do endividamento se mantém, mas o risco financeiro associado ao serviço da dívida cresce. Pedro Daniel Magalhães elucida que empresas com estruturas de capital mais conservadoras, com menor alavancagem e maior proporção de capital próprio, tendem a atravessar ciclos de juro alto com menor pressão sobre a geração de caixa operacional, ainda que abram mão de parte do potencial de alavancagem do retorno sobre o patrimônio líquido.
O conjunto desses elementos indica que a gestão do custo de capital não é uma atribuição exclusiva das áreas financeiras, mas uma variável estratégica que permeia todas as decisões relevantes de alocação de recursos dentro das organizações. Em um ambiente de juros estruturalmente mais altos, a disciplina financeira passou a ser um diferencial competitivo real para as empresas que pretendem crescer de forma sustentável.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

