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Leitura: As aventuras (ou farsas?) do Capitão de Longo Curso, de Jorge Amado (contém spoiler)
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As aventuras (ou farsas?) do Capitão de Longo Curso, de Jorge Amado (contém spoiler)

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 9 de abril de 2021 8 Min de leitura
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Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso é um romance escrito por Jorge Amado, afirma Rafael Libman, leitor ávido e apaixonado pelo mundo dos livros. O livro teve sua primeira publicação no ano de 1961 e até hoje faz enorme sucesso entre os amantes da literatura. Jorge Amado, ilustre escritor, é aclamado em seus livros, pela essência do Brasil e, principalmente, da Bahia.

O livro conta a história de Vasco Moscoso de Aragão, tornar-se-ia, posteriormente, o célebre Comandante Vasco Moscoso de Aragão, o capitão-de-longo-curso. A história se inicia com a chegada do capitão a Periperi, um bairro pequeno em Salvador, capital da Bahia. Lá, atracou o Comandante Vasco Moscoso de Aragão que reuniu olhares curiosos da cidade toda.

Periperi era uma cidade pacata, não havia muito o que fazer nem muito o que falar, por isso, a chegada do Comandante fez um rebuliço na cidade, fala Rafael Libman. As histórias de navegação ao redor do mundo deixava todos boquiabertos e sedentos por mais narrações. Eram enredos ao longo dos mais dispersos portos em vários continentes; histórias de amor, de perigo, mas sobretudo, de aventura.

O livro, na verdade, conta duas histórias. A de Vasco e a do próprio narrador, um historiador medíocre e presunçoso. Tudo se inicia da seguinte forma: o narrador possui a incumbência de descobrir a verdade por trás das histórias do Comandante, mas ao longo da narrativa, suas angústias, medos, orgulhos são relatados. Ele interrompe sua busca pela verdade para falar de si. Por exemplo, para explicar o porquê está demorando até chegar à verdade, expõe sua opinião ao longo da narrativa, até sobre as personagens.

Além disso, nesse processo exibe sua relação, um tanto quanto esquisita, entre o Juiz Siqueira, figura a quem tinha completa admiração e, com certeza, um puxa-saquismo. A mulata Dondoca é amante do juiz, por puro interesse em seus bens, é o mais impressionante, na calada da noite, divide a cama com o historiador, o desenlace desse núcleo tem um final digno de Dona Flor e seus dois maridos, afirma Rafael Libman. 

O tempo cronológico do livro é após trinta anos da época do Comandante. Então, há uma viagem pelo tempo, vagando entre os relatos do passado e o presente do narrador. O ponto chave da narrativa é quando Chico Pacheco, um fiscal aposentado, desconfia das aventuras vivenciadas pelo Comandante. Há indícios de inveja, mas é nesse momento que a história de Vasco começa a ser contada, desde seu nascimento, adolescência até se tornar Comandante. Neste lado, as histórias de Vasco eram todas falsárias, e ele não passava de um abastado de família de mercadores na cidade, adquirindo o título pago, não havendo habilidade e experiência em mar.

Ao longo do enredo, importantes personagens tomam forma como Carol, proprietária de uma pensão de mulheres, onde era local de bailes e festas. Seu Aragãozinho frequentava na época de mocidade com seus amigos. Vale ressaltar que ainda era Seu Aragãozinho, sem títulos ou cargos em seu nome. Motivo que, de acordo com a narrativa trazida por Chico Pacheco, entristecia muito o Capitão, fazendo com que, dessa forma, fosse atrás de um título para ser alcunha de algo maior, não simplesmente seu, por mais que a sociedade o admirasse, era algo interno, afirma Rafael Libman.

O narrador nestes momentos de investigação da verdade, relata sua confusão em torno das personagens, pois uma hora as personagens compunham o enredo de Vasco na pensão, outra as mesmas poderiam fazer parte de uma viagem em alto mar. Foi quando tudo mudou, a narrativa chegou a um ponto em que Vasco comandou um navio, após já estar instalado em Periperi, era o cenário ideal para mostrar seus feitos e sua habilidade e calar a boca de toda a desconfiança, tendo em vista que o bairro se dividiu entre apoiadores e desconfiados. Quem apoiava o Comandante ficava na orla da praia, virados pra praia, quem tinha desaprovação ficava na praça, nota-se a relevância que o Comandante tinha em Periperi.

O que houve para este cenário ideal foi a morte do comandante do navio vindo do norte do país, portanto, o Comandante Vasco Moscoso de Aragão, por motivos legais, era o único naquele local que poderia levar de volta o navio a Belém. Deu-se então mais um capítulo de narrativas, salienta Rafael Libman. Ao longo da viagem de volta, Vasco conhece muitas pessoas, perpassa por temas políticos, os quais Jorge Amado possui em sua obra, e conhece Clotilde, antes amou apenas Dorothy, nome tatuado no braço e responsável por mais uma aventura de amor de Vasco. Casada, os dois largaram tudo para viver esse amor, porém Dorothy morreu de febre amarela três dias depois. Clotilde era uma mulher madura, requintada e elegante. Os dois em pouco tempo criaram um sentimento avassalador.

Ao final da empreitada, o processo para atracar o navio chamou a atenção dos tripulantes. O Comandante já havia falado que não mudaria em nada as ordens do falecido comandante e assim o fez. Ao longo da odisseia ele fez presença em jantares e concertos, porém não mudou o andar do ita. Mas o desembarque era de costume e processual do ramo marinheiro, o comandante teria que ordenar como seria feito o desembarque. O tripulante então perguntou:”Quantas amarras? Quantos ferros? Quantas espias? Quantos strings? Ancorote ligado ao cabo de aço?.” As respostas eram sim e em altas quantidades. Todas essas ordens causaram zombaria na tripulação por conta do mar calmo de Belém, até Clotilde não quis mais saber de Vasco. O Comandante envergonhado, humilhado e desconsolado, parte para uma velha pensão na cidade. Bêbado e impotente, cai num profundo sono e perde o principal conhecimento arrebatador na cidade: uma chuva torrencial que inundou Lago e rios, destruiu casas, fez perder barcos, nunca antes houve um temporal daqueles e a única embarcação que sobreviveu a todo esse caso foi o ita comandado pelo Comandante, a embarcação mais segura que havia no cais. Passado o temporal, a tripulação em peso foi atrás do Comandante para agradecer imensamente e levar suas envergonhadas desculpas. Dessa forma, de crista levantada, o feito do Comandante estampava capas de jornais e revistas. O único capaz de prever aquele temporal, ignorância no assunto ou conhecimento sobre a climatologia? Intromissão do destino? Como saber a verdade sobre as histórias de Vasco Moscoso? O livro aborda uma completa busca da verdade perpassando entre a realidade e o mito.

Tag:rafael libman
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